domingo, 4 de maio de 2014

Sabedoria Infantil

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Eu e a minha neta viajamos no fim de semana e tivemos muito tempo para conversar e brincar. E ela me encantou em duas conversas que tivemos:
Primeira conversa: Ao embarcarmos no ônibus para voltar, organizamos nossa bagagem, peguei uma mantinha para nos aquecermos, poltrona reclinada para ficar mais confortável, durante essa operação ela me disse: Vamos fazer de conta que vamos viajar de avião e que estamos indo para o Rio de Janeiro (dois dos sonhos dela)? Eu disse que tudo bem e faríamos uma boa viagem. Assim que começou a viagem ela começou a dar os comandos e avisar quando seria a decolagem, em meio a essa alegria dela, me olhou bem e disse: Vovó é tão interessante a nossa imaginação, podemos fazer coisas que se parecem de verdade. Eu adoro imaginar! E fiquei a pensar no por quê que perdemos essa capacidade ao longo da vida.
Segunda conversa: Depois de tanto inventar brincadeiras e discutir tantos assuntos, ela me perguntou do que poderíamos brincar. Como ela gosta muito de perguntas e respostas, de faz de conta, propus que falássemos de como a gente vê o sentimento (essa atividade fiz no treinamento do voluntariado e gostei muito da dinâmica, já que no geral não tratamos muito desse assunto e eu achei que isso é importante para a formação de uma criança) e democraticamente escolhemos do que falaríamos: tristeza, amor e raiva, ao ser feita essa escolha ela em seus 6 anos me olhou bem e disse: Vovó fala você sobre a raiva, pois esse é um sentimento que eu nunca tive, então eu não sei como é. Confesso, que nesse momento o coração bateu em disparada, enternecido e envergonhado, afinal, que sentimento é esse que aprendemos ao longo da vida e que muitas vezes nos consome, nos destrói e nos corrompe? Quando eu me preparei para falar extremamente emocionada e constrangida por eu saber tão bem que sentimento é esse. Ela resolveu fazer uma colocação: Ah, vovó, de verdade mesmo eu senti raiva uma vez, eu ouvi o apito do picolezeiro e corri lá para a calçada para poder comprar o picolé, só que ele não virou na nossa rua e naquela hora eu fiquei com raiva, pois, eu queria muito um picolé. Só me restou dar um forte abraço nela e um beijo e eis que ela me olha e me pegunta: Mas então vovó, como é a raiva para você? E não me houve opção a não ser expor o que era esse sentimento para mim, embora minha vontade fosse abrir um buraco e me enfiar dentro, afinal, tive que ser franca e ai quem dera se a minha raiva fosse aquele bico pela mudança de itinerário do vendedor de picolés.
Depois dessa demonstração de pureza e inocência vou rever todos os meus sentimentos, sei que como ser humano estamos sujeitos a ter todos os tipos de sentimentos, dos mais nobres aos mais miseráveis, isso não tem nada de errado e nem devemos tentar ocultar, porém a intensidade com que eles são vivenciados e externados, isto sim é que se deve levar em consideração.

By Velufreitas

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